A Busca pelo traço original e como estudar referências na ilustração

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Eu estava em uma aula de História da Arte quando o céu se abriu: o professor apresentou uma série de artistas que tiveram influências muito fortes em seus trabalhos. Talvez você não saiba que Hieronymus Bosch estava numa vibe surrealista bem antes do autor do relógio derretido, Salvador Dali – considerado uma das pessoas mais originais que já existiram. E não, minha intenção não é por à prova alguém tão gente boa como ele e seu bigode, mas te lembrar que grandes mestres também foram influenciados, querendo ou não.

E você já parou pra perceber como a gente tem mania de achar que essas pessoas são escolhidas a dedo pelo universo e que são totalmente diferentes de nós? Por isso, eu estou aqui numa tentativa de tirar um pouco dessa angústia que muito ilustrador tem de desenvolver um traço único, jamais visto na face da terra. Todo mundo sabe que isso existe, mas ninguém comenta.

É tipo aquele alface que você tá vendo no dente daquele colega de trabalho: incomoda mas ninguém consegue tirar o olho. Afinal, o que é esse tal de traço original? Como faz pra desenvolver? Bom, eu não tenho a resposta certa, mas desconfio que ter boas referências pode ser um dos caminhos para ser um bom artista/ilustrador e com o tempo fui encontrando formas de estudar artistas que eu admiro. Espero de verdade, que essas dicas funcionem pra você ou melhor ainda, te influenciem pra criar o seu próprio jeito.

1 – Antes de mais nada, aceite as influências de coração aberto;

Muitas vezes temos medo de imitar. Mas no fundo, imitar um ilustrador que gostamos é um jeito de dizer que queremos ser assim quando crescer e não há mal nisso. A não ser que você publique o desenho dizendo que é seu, sem dar os devidos créditos. Aí você merece um pescotapa.

Faça uma lista dos seus artistas preferidos e estude cada um deles. Disseque suas histórias, suas ideias, seus traços, projetos. Acredite, é reconfortante saber que os grandes podem ser muito “gente como a gente”.

2 – Veja, analise, sinta o que você realmente gosta neles;

Depois de estudar seus artistas preferidos, você pára pra analisar profundamente o que realmente te atrai. Nessa brincadeira, eu descobri que boa parte da minha admiração pelo trabalho da Mary Blair se deve ao fato de que ela enxergava tudo de uma forma flat, sem perspectivas. Eu nunca tinha notado isso antes, apesar de gostar muito dela.

Tendo isso em mente, você organiza tudo em pastas dependendo do que for somar no seu trabalho: composições, personagem, cores, significados. Faz isso no seu computador, no Pinterest ou num mural de isopor (sem julgamentos). Você vai ver que depois ficará mais fácil de se achar, do que numa imensa pasta chamada “referências” (que eu sei que existe aí).

Mary Blair, it’s a small world concept art, ca. 1966; 4 x 6 in. (10.16 x 15.24 cm); Walt Disney Family Foundation; © Disney
Mary Blair, it’s a small world concept art, ca. 1966; 4 x 6 in. (10.16 x 15.24 cm); Walt Disney Family Foundation; © Disney
3 – Misture os ingredientes;

O jogador de basquete Kobe Bryant disse que todas as suas jogadas foram “roubadas” de vídeos que assistia*. Incluir um pouquinho de cada artista que você curte pode dar samba.

Note: tem pitadinha de formas geométricas do Pablo Lobato no meu trabalho, mais um tantinho de humor do Peter Donelly. Não é nenhum segredo.

4 – Entenda que o estudo não tem fim;

Aqui a frase do sábio Sr. Kimble, em ‘Um Tira no Jardim de Infância’ é prática: vamos transformar essa preguiça em músculos. Portanto, se você quiser ser um ponto fora da curva, vai precisar estudar sempre. Bobby Chiu, diretor criativo, fala exatamente disso num de seus vídeos: grandes artistas tem isso em comum – sede de aprendizado. Eles até poderiam parar, mas não param e é por isso que são brilhantes.

Infelizmente eu já ouvi um cara falando que não queria estudar nenhum artista porque estava num processo de desenvolvimento do “próprio estilo” e não queria se “contaminar”. Eu ri, mas não era brincadeira. Vamos combinar que é um desperdício não aprender com quem fez e está fazendo um trabalho de qualidade e um tanto inocente pensar que não somos influenciados.

E cá entre nós, eu desconfio seriamente que os artistas mais originais não estavam realmente interessados em inventar a roda, mas totalmente envolvidos com o que sua arte precisava comunicar. Portanto, libertemos nossas mentes, aproveitemos mais o que temos a dois cliques de distância, sem amarras e sem idealizar demais o tal do traço único.

E entre um estudo e outro, na prática, no envolvimento profundo com o trabalho, tenho certeza que no fim você vai perceber que não há ninguém que se comunique através do desenho como você. E será que esse não seria o verdadeiro sentido do traço original?

– Dica de leitura boa e do bem: Roube como um artista*, de Austin Kleon e a crônica O Novo, de Martha Medeiros.

  • Este post foi originalmente escrito para o Follow the Collors, onde sou colunista.

Beijos e queijos,

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Clau Souza

Ilustradora há 10 anos e está a frente do Estúdio, Lojinha e Cursos Criativos da Borogodó. Durante a sua caminhada pela estrada de tijolos amarelos da ilustração já teve a felicidade de estar em grandes publicações da área, como Lürzer's Archive, Zupi e Computer Arts. Desconfia seriamente de pessoas que não gostam de cores e tem pavor de palhaços (mas já teve que desenhar alguns).

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6 comments

  1. Muito bom artigo Clau, acredito que pra quem esta chegando agora (assim como eu) fica difícil adquirir um traço único e de qualidade, sempre vai ter aquele alguém que já fez, o que quero dizer é que fica quase impossível não perceber as referencias. E me identifiquei com a dica 3, é tipo “Frankenstein” um pedacinho de cada, haha !!!

    Adorei a matéria, e adoro o blog !!!
    Sucesso, abraço 🙂

    1. Vlw Rodolpho! Mesmo começando agora, é importante entender que não tem problema seguir referências, muito pelo contrário – isso só te faz melhor! Continue ligado por aqui e assine a newsletter pra receber os posts no teu email! bjão

  2. Clau, gostei muito do post.

    Falou algo compartilhei ser verdade.
    Não preocupar-se com o “final”, ou seja, o desejo do traço, porém aproveitar a viagem na pesquisa e ir profundo.

    Coloquemos em pratica a receita do bolo 🙂

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